10.11.09


© carlos júlio

2.11.09



O viajante


O viajante é um projecto multidisciplinar, centrado no cruzamento de diversas leituras fotográficas de um romance de Italo Calvino, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante. Nele, Calvino propõe construir um romance a partir de diferentes começos, fragmentos narrativos que conduzem o leitor a lugares distintos, construindo tipologias que organiza segundo categorias que funcionam numa lógica simbólica e interpretativa que vai da névoa, da atmosfera ao apocalipse.

A viagem é um tema eminentemente fotográfico e o fotógrafo tem sido, desde o início, um viajante, um observador e uma testemunha. Alguém que se desloca e ao deslocar-se altera o seu ponto de vista. As fotografias resultantes são fragmentos, vistas parciais, possibilidades de ponto de vista que nos dizem do lugar do fotógrafo e do que tinha em frente; não nos dizem nada. Mas são todas potenciais narrativos e por isso, quando se cruzam com o espectador, dizem tudo. Esta ambiguidade, que a natureza da fotografia lhe empresta, torna-a num instrumento privilegiado para pensar a nossa relação com o mundo, e construir a nossa própria narrativa. Tal como a pintura, a fotografia é una cosa mentale.

O que se apresenta é uma rede organizada a partir de um conjunto de pontos de vista de diferentes observadores-leitores-fotógrafos construídos a partir das possibilidades narrativas propostas por Calvino e esta rede é tecida a partir de leituras deste núcleo inicial envolvendo diversas práticas artísticas da palavra à escrita, do som à performance, da pintura ao vídeo.

O viajante é uma experiência colectiva proposta aos sentidos do leitor-espectador. Não por acaso, o romance começa numa estação de caminho de ferro…

Francisco Feio

31.10.09


© agrafo.

que bom tê-lo de volta aqui
.

20.10.09


chego tarde evito a quarentena dos aflitos

arrumo o quarto a secretária os elos os sobressaltos a crónica da anemia

aliso a cervical de esguelha observo quem se aproxima

no mouth no neck no rest

observo raparigas que lêem

hoje uma caiu nos braços de um rapaz tranquilo amparámo-la até chegar o INEM

a gabardine do revisor protegeu-a quando chovia

ao atravessar o cais para a praça de táxis

revejo a imagem de um outro rapaz que lia Virginia Woolf apoiado

no estofo azul dos bancos da locomotiva

tem agora os pés salgados pela água do estuário

levado por um rio de prata por peixes estranhos

por tantas melodias e eu

desenho estruturas metálicas pontes passadiços plataformas

desenho raparigas que lêem nos transportes públicos desmaio

ultrapasso os condicionalismos da minha mobilidade

não tenho carta nem rota

a linha imaginária entre dois estratos em silêncio.

13.10.09

pilhas de livros no chão da livraria na mesa no balcão
uma cave onde se alojam volumes e segredos

longe da montra sobre a rua face a face

uma casa de brinquedo um conto de reis

uma resma de livros nos dedos manchados de tinta.

já passa das dezanove encerras o escritório

antes de subir contaras

geométricos azuis-bébé verdes-retrete azulejos
polidos
o aleatório visual transformado em pauta no córtex do dia

contaras depois as horas os estalidos do isqueiro os requerimentos as alocuções

as mudanças de tonalidade no céu colhido pela janela basculante

observaras os rolos de fumo acumulados na massa de ar do compartimento

atribuíras-lhes palavras um jogo mas

adormecida fica a máquina de escrever agora que se foram o sócio e a secretária

os lances de degraus atravessam-se no sentido contrário e


num sopro de laca o Outono varre a cidade
da penumbra dos cedros do Líbano às folhas de carvalho
que crianças perseguem no saibro vermelho.


6.10.09

sentimental tão sentimental hoje
morreram Mercedes

G. Harrison
Brel
não sinto a falta de Lennon aliás nem sabia que sentiria a de G. Harrison
se hoje não tivesse despertado ao som que R. atribuira à sua crónica

frente a frente com a morte às cinco e meia da manhã
uma morte estranha
nada geracional
apenas mortos aqueles para quem olhara achando que
um dia vestiria um casaco de veludo glam rock teria
um namorado de vasta cabeleira para dançar o slow numa festa de garagem
longas pestanas botas brancas mini-saia
um dia de liberdade por certo sentimental
tão sentimental.

3.10.09




(caneta sobre papel, setembro 2009)

30.9.09



(caneta sobre papel, setembro 2009)

28.9.09


(caneta rotring sobre papel, 1985)

26.9.09

no domingo de manhã somos todos verdadeiramente iguais.
luís januário, n'a natureza do mal



24.9.09




(caneta sobre papel, setembro 2009)

o reflexo da rapariga no comboio, como ele é.


© cj

aqui, em espanhol.

22.9.09

os quartos cheios e eu entalada por corredores de silêncio
tragada por mim própria insone

sem lugar outro para deambulações ou equívocos
sem interlocutor ou reflexo

escolho livros das estantes empilho-os junto ao sofá

caiem
durante a noite da mesa de cabeceira
pesam-me o sono o peito os bolsos a carteira

entopem passagens
inquieto-me
perpassam-me sombras de poemas
velozes como fotogramas

desenho
árvores de palavras
equações de sobressaltos

impeço-me de respirar.

21.9.09

no último dia de verão, para F.

9.9.09


(tinta permanente e aguarela sobre papel, sem data)

7.9.09


© cj

como sempre identificarei este verão pela leitura de alguns livros
Os meus prémios do Thomas Bernhard
A mesa limão do Julian Barnes
Morte em Veneza em vez d’A Montanha Mágica do Thomas Mann
A sangue-frio do Capote por preço de saldo
nenhuma poesia
uma lista que deambulou entre a mensagem electrónica de R.
e os escaparates das livrarias
sou demasiado preguiçosa para anotar os livros que leio
os meus livros de verão são
viagens por outros paralelos economato de impossibilidades

condensada sintaxe de figuras
ideogramas para a morte
agora que estamos quase na próxima estação
deixam-me em estado de alerta
entregam-me a insónias atravessam pesadelos diurnos
alimentam extensos dias de trabalho
nenhuma poesia repito excepto a que L. traduziu
o maior número de filmes possível entre o cinema e o clube de vídeo
o maior número de vezes para escutar
Zach Condon
Owen Pallet
Win Buttler e Regine
afasto-me pouco a pouco
imersa na invisibilidade que me atribui um final
esqueço-me dos mortos esqueço-me dos debates eleitorais desenho
raparigas de cabelo vermelho que escrutinam cutículas e digitam mensagens
em telemóveis de última geração

rapazes de penteados artificialmente revoltos personagens de
manga
mulheres-a-dias e os seus crochés
quero sentar-me ao largo das suas conversas
das suas pequenas misérias hospitalares
imaginar-me a solo sem desígnio
aguardando sem nada esperar
encontro-lhes porém outras histórias
às vezes aquelas que leio nos meus livros de verão
não estou de férias pouco descanso pouco durmo
a memória trai-me
o tempo falha-me
ausento-me do que não deveria
outros se ausentam de mim
um verão por interpostas leituras vou hoje arrumá-las
por ordem geográfica nas prateleiras do corredor.


(caneta sobre papel, setembro 2009)

30.8.09




(lápis e tinta-da-china sobre papel, agosto 2009)

21.8.09



© pedro morais



eden, inaccessible eden!

16.8.09


(caneta rotring sobre papel, sem data)

12.8.09

quanto tempo para o silêncio
que se faz acompanhar do sobressalto
o enclave que se oculta no tórax
um ser voraz
que me arranca à quietude artificial da canícula
enquanto da sala espreito o Jardim
ando devagar sobre a alcatifa
organizo pautas no meu crânio
em surdina falo sozinha
parade sauvage pour arthur rimbaud
das sombras olham-me os poetas sentados no canto da mesa
digo sílaba a sílaba
hector zazou
sahara blue

deleito-me com esta interlocução repito-a

embalo-me no som dos tambores entre tímpanos entre versos
quedo-me face aos senhores Edwards
abro o porta-folhas de grande dimensão
sento-me na roda do piano exponho os meus dotes
faço o périplo da cegueira
o zapping dos programas ideológicos da estação
arrumo a mala a correspondência os punhais do desentendimento
e penso que dor obliterara o passado até este deixar de existir
até o presente contornar a dor e esta se transformar em passado
e tu deteres num único momento o poder álacre de mudar a minha vida?

11.8.09



(caneta sobre papel, julho 2009)

rapariga no comboio

6.8.09




continuo a andar
o verão apresenta-se numa disfuncionalidade embaraçosa
eu também
atravesso passeios entro no táxi digo para o largo D. Dinis por favor
ajusto o auscultador nos dias em que me atribuo uma banda sonora
dedico os meus olhos à projecção interior dos espaços que percorro
de comboio de táxi a pé posso dessa forma recriá-los quando escrevo
estranha forma esta de recuperar uma e outra memória
espaços vazios lugares que se apagam outros que reaparecem nítidos
a rua dos Caldeireiros
a rua das Flores
a rua da Bainharia
a rua do Almada
a esquadra onde separo identidades
dispersas por objectos perdidos
em busca da minha guardara-a numa carteira
estranha forma de me perder para uma nova vida
saio para a praça observo as fachadas
precisarei de um ano para ser capaz de as desenhar
o que faria pelo jardim de S. Lázaro
passeio pelo largo das Fontainhas
faço de conta que sou um qualquer pássaro uma folha de papel
voo sobre as encostas do rio devo imaginá-las antes do burgo
antes da ponte D. Luís
um exercício escolar
aterro no varão dessa outra desenhada pelo Gustavo Eiffel
agarro-me com força não olho para o rio
avista-se por entre as tábuas do passadiço
se me cai o caderno lá se vão a arquitectura os desenhos os poemas

os números de telefone se caio
não serei como uma folha de papel não terei asas
apenas o peso das gárgulas
volto as costas ao comboio-foguete
estremece a estrutura de ferro a que me ancoro
regresso ao exercício
perceber o corpo das encostas afastar construções

muros de granito empenas de chapa
a folhagem outonal que cobre as
ilhas
vergas de porta caiem com estrondo no rio
rapidamente aponto as curvas e as sombras
antes que volte tudo ao seu lugar
caminho de regresso à margem acompanha-me um inter-regional
uma brisa de enxofre
rapazes de farda acenam lançam beatas pelas janelas
dirigem-se à gare de S. Bento eu já não sei por onde de ali saí
creio que foi pela curva de um anfiteatro a céu aberto

a Grécia no Porto desenhos a giz
linhas de uma viagem maior narrada pelo Arquitecto
mapas do Sítio

o genius loci que daí em diante se procurará por todos os lugares de uma vida
a livraria na rua de Ceuta
o recoveiro na Trindade
o cinema da Batalha
o café Guarani
a avenida da ponte
a Galilé
o largo dos Grilos
a rua de Sant’Ana
as fachadas de caixilhos à face assentes sobre taipas coloridas
elevadas da humidade das calçadas por muros de granito
entre prostitutas e chulos bandos de crianças descalças jogam à bola
há roupa pendurada nas janelas
velhas sentadas nos degraus das portas
mulheres com bebés de colo
pescadores na Ribeira observam-me de caderno na mão
esforço-me por desenhar
cobiçam-me os lápis caran d’ache
a caixa lembra as vinhetas dos chocolates suíços
prossigo sozinha.

4.8.09




(técnica mista, sem data)

2.8.09



(caneta e aparo sobre papel, sem data)

1.8.09


© agrafo

terra habitada
, um lugar que me faz falta.

30.7.09


© álvaro rosendo

mais tarde o corpo cansa-se e procura o encaixe
que devolva o soco e consolide estilhaços assim como um airbag de silicone
pacotes de férias nas termas ou nos trópicos mais distantes

na companhia de opiáceos e de analgésicos boiando nas águas do recife
em empreendimentos energeticamente certificados
onde se degustam iguarias ecologicamente confeccionadas
copos de uísque velho sem gelo e os politicamente correctos charutos de Havana
promessas de sexo musculado bordões de misogenia nos outdoors

frente ao vidro faço o risco que assinala a pálpebra e se alonga até às têmporas
de um lado ao outro delimita o curso do escalpelo cravo-o fundo na memória
allumeuse ou puritana porque não me lembrarei eu
de outras definições em mim apostas
contraditórias cegas clarividentes armas de arremesso
shadows have the saddest things to say canta a Mitchell
esta é uma daquelas noites em que me atiro contra mim própria
uma vez após outra e ainda outra sem que se rompa a pele ou quebrem os ossos
sem que vença a aridez de uma esfera que se rarefaz a cada embate
poderia antes gritar se fôlego houvesse

na casa das magnólias onde há um arquivo de repartição
cujos compartimentos de madeira albergam
discos de vinil uns dois milhares alfabeticamente organizados
a música que R. juntou e que se escuta no cansaço da madrugada
digo para mim própria
poderíamos dançar
antes de adormecer no quarto do sótão
e acordar rindo de todos os clichés
abandonando o pudor do déjà-vu
posando para o fotógrafo que se deitara no sofá
tem os olhos semicerrados
mede a luminosidade na penumbra
antes de disparar.

27.7.09


© álvaro rosendo

20.7.09

não serei
dedicada submissa esquecerei
todas as instruções para a limpeza do lar falharei
as poupanças o mutualismo
a pedicura as unhas de gel o peeling a musculação
chegarei tarde
partirei cedo nos jantares casamentos baptizados
será junto de outrem que me sentarei
serei impulsiva ignara
percorrerei desassombros sem referência
não estarei disponível não tomarei a pílula
ansiarei por todos os preliminares amarei
os filhos de um amor não passível de clausulado
não disporei de património herança promessas eternas
em vão buscar-me-ei por entre sonhos e escombros
para que em vão saibas como reconhecer-me
como perder-me enquanto me pergunto
porque razão haverás tu de querer-me
não serei um bom partido
assim velha gorda distante mal-humorada
ávida
tantos adjectivos para uma só pequena pessoa.


© álvaro rosendo

13.7.09

X.



(caneta sobre papel, julho 2009)

the age of innocence. de martin scorsese

11.7.09


(caneta sobre papel, 1986)

8.7.09



© pedro tudela, in [me...mo]


num quarto de hotel apoiada no esqueleto da vidraça
registo interiormente o movimento que fazes
o estado das coisas tomado de um balcão descarnado
o reflexo da lâmina sobre as axilas
um braço tombado ao longo da nuca
a banheira que transborda sob a massa do corpo
o tanque feito estendal de intimidades absurdas
o cabelo molhado short-back–and-side
o espelho sobre o ladrilho
as camas de solteiro
o banco das malas
o caixilho que se entreabre e depois outro e outro
o rumor que percorre os corredores.

dizes este é um poema a preto-e-branco
digo este é um poema com atraso
corro como alice atrás da vertigem
asfixio desaperto o vestido calço e descalço os sapatos
corrijo o batom eu sei
um fait-divers
e tu aí sim és tu quem interpelo

slow motion.
still life.

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